Jantar, dia 8 de Janeiro, no Mosteiro de Tibães

As associações cívicas e culturais ASPA, Associação Cultural Sá de Miranda e a Velha-a-Branca promovem, no próximo dia 8 de Janeiro, no Mosteiro de Tibães, um jantar de homenagem ao ex-director da Biblioteca Pública de Braga, Henrique Barreto Nunes. Com este jantar e respectivo programa cultural, as associações referidas pretendem evocar e celebrar as causas de sempre de um homem que é um exemplo de luta constante pela afirmação cívica, cultural e democrática da cidade de Braga.

Inscrições:
- durante o dia - Livraria Centésima Página (Av. Central, 118-120)
- à noite - Velha-a-Branca (Largo da Senhora-a-Branca, 23)

mais informações homenagemhbn@gmail.com ou 917 642 367

A BIBLIOTECA É UM SILÉNCIO CHEIO DE VOZES

Os livros das bibliotecas: «passaram por mãos de leitores anónimos romances cor-de-rosa que aqueceram corações solitários, páginas febrilmente desfeitas que fizeram viajar e sonhar, ensaios que alimentaram o espírito de professores e investigadores, livros que serviram para rezar e cantar.» Henrique Barreto Nunes é director da Biblioteca Pública de Braga e a ele se devem muitos textos e ideias sobre as novas bibliotecas portuguesas.

Tenho uma profissão privilegiada, fascinante. Sou bibliotecário, porque gosto de livros. De os ler, de os ver, de os afagar - de os dar a ler. É uma paixão e, como tal, inexplicável, mas que posso atear e consumir sempre que quero, em qualquer sítio em que existam livros mas, sobretudo, na Biblioteca Pública de Braga.

A biblioteca é um silêncio cheio de vozes.

Percorrendo lentamente os seus depósitos, os seus corredores e salões, tenho, todos os dias, um contacto íntimo com as grandes obras do património literário da Humanidade – dos poetas e dos romancistas, dos historiadores e dos filósofos, dos juristas, dos teólogos, dos cientistas.

Desde os incunábulos, que seguro com mil cuidados, até às edições mais recentes da criação contemporânea, passando pelos clássicos e humanistas, pelos oradores sacros e pelos historiadores, pelos intelectuais e políticos do século XIX, pelos escritores de sempre, é uma história interminável que se desenrola perante os meus olhos deslumbrados, que todos podem partilhar quando vão à biblioteca.

São livros que vieram de mosteiros e de catedrais, de seminários e de colégios, de gabinetes de leitura ou das casas de grandes figuras locais, que não quiseram que as suas livrarias se dispersassem e as encaminharam para a biblioteca.

É o Missal Bracarense usado por D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, que o autografou, a Encyclopédie de Diderot e D'Alembert, com a marca de posse do Convento dos Congregados, a primeira edição do Só, com uma dedicatória de António Nobre, os livros que foram lidos e anotados por Manuel Monteiro, Carrington da Costa, ou Vítor de Sá.

São milhares de livros que passaram por mãos de leitores anónimos, romances cor-de-rosa que aqueceram corações solitários, páginas febrilmente desfeitas das aventuras de Salgari ou das utopias de Júlio Verne que fizeram viajar e sonhar, ensaios que alimentaram o espírito de professores e investigadores, livros que serviram para rezar e cantar.

E são também os livros virgens, intactos, de cujos encantos nunca ninguém desfrutou, que aguardam, ansiosos o seu primeiro sedutor. Ou uma pilha de alguns romances eróticos que, noutros tempos, mãos zelosas ocultaram conscienciosamente por detrás de edições do século XVIII, na secção de religiões...

Livros que sobreviveram a guerras e a incêndios, à humidade, a roedores e a insectos, a pilhagens, às incorporações revolucionárias, à censura que os mandava retirar da leitura ou mesmo destruir.

Livros que passaram por mãos de frades piedosos ou de poderosos arcebispos, de honrados políticos ou de operosos intelectuais, pelas mãos de leitores atentos e vorazes, pelas mãos apressadas de estudantes ou descuidadas mas sôfregas de crianças.

São testemunhos imperecíveis de séculos de História e de sonhos da Humanidade - das suas descobertas, do seu espírito criativo, ou da sua revolta. São objectos de cultura e de prazer, uma referência insubstituível da nossa identidade, uma presença necessária no quotidiano de todos nós.

E é, enfim, a angústia constante, o desespero de ver tantos livros ao meu alcance, sabendo que nunca terei vida(s) para os viver.

Henrique Barreto Nunes


LER N.º 26, 1994

Despedida

Em Julho, Henrique Barreto Nunes despediu-se da Biblioteca Pública de Braga com este texto.

Tenho 62 anos. Trabalhei 34 anos e oito meses na Universidade do Minho: um ano e meio nos Serviços de Documentação (então instalados no edifício da Biblioteca Pública), um ano na Unidade de Arqueologia (a funcionar no Museu dos Biscaínhos), 32 na Biblioteca Pública de Braga, de que oficialmente fui director de 2000 até hoje. Em Setembro 2006, num momento dramático, a Reitoria pediu-me para também dirigir, provisoriamente, o Arquivo Distrital de Braga. Fiquei até ao fim.

Estou cansado, já não me sinto com capacidade para ser responsável por estas duas prestigiadas instituições culturais, em tempos difíceis, com falta de meios e recursos humanos, (o Arquivo Distrital é o segundo mais importante do país, mas não possui um único técnico superior de arquivo), quase sem apoios – embora deva deixar aqui expressa a minha estima pessoal pelo Professor A. Guimarães Rodrigues e a minha gratidão ao Professor José Viriato Capela.

Na Universidade do Minho pertenci ao Conselho Cultural, presidido pelo inesquecível Professor Lúcio Craveiro da Silva, desde a sua criação em 1986, sendo seu secretário, coordenador editorial da revista “Forum” e membro da comissão organizadora do Prémio Victor de Sá de História Contemporânea. Fui membro da Comissão Instaladora da Casa Museu de Monção. Pertenci, por eleição, ao Senado Universitário e à Assembleia da Universidade, de que fui secretário da Mesa. Pertenci ao colégio eleitoral que elegeu o seu primeiro Reitor e, devido a circunstâncias especiais, presidi à Assembleia que elegeu o actual. Estive na origem do processo que conduziu ao Salvamento de Bracara Augusta, surgido na U.M. em finais de 1975, e fui um dos artífices (quer se queira, quer não) da adesão da U.M. à Rede de Leitura Pública, que acompanhei apaixonadamente de 1960 até às vésperas da inauguração da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Colaborei em numerosas iniciativas de Escolas, Institutos, Unidades Culturais, Serviços e da Associação Académica.

Vi partir com saudade Carlos Lloyd Braga e J. Barbosa Romero, Egídio Guimarães, Armindo Cardoso e M. Assunção Vasconcelos, Afonso C. Ferreira e Alice Brito, Francisco Botelho e Hélio O. Alves, Victor de Sá e Santos Simões, Lúcio Craveiro da Silva.

Sinto uma imensa tristeza por deixar a Biblioteca Pública de Braga, os meus amigos-companheiros de trabalho, os seus leitores, os livros, a acção cultural que faz parte da minha respiração, da minha vida.
Ainda tinha tanto que fazer…

Braga, Biblioteca Pública, 31 de Julho de 2009

Henrique Barreto Nunes